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HISTÓRIA DA MEDICINA

14/06/2020 - Garota prodígio

A REVISTA DA APM vem, a cada edição, relembrando a trajetória de médicos que foram fundamentais para a profissão no Brasil nos últimos anos. Em maio, a grande homenageada é Rita Lobato Velho Lopes, considerada a primeira mulher a se formar e a exercer a Medicina no País, se destacando por ser um exemplo de determinação e por abrir caminhos para que outras futuramente viessem a seguir seus passos.

Desde muito pequena, a futura médica já se sobressaía pela dedicação aos estudos. Por causa do trabalho do pai, ela e a família moraram em diversas estâncias da região, próximas à cidade de Pelotas (RS), onde Rita teve a oportunidade de estudar em renomados colégios, concluindo o primário aos 9 anos de idade.

A morte de sua mãe durante o nascimento do irmão caçula foi o pontapé inicial para que a jovem corresse atrás do sonho de se tornar médica. Seu objetivo era evitar que outras mulheres morressem da mesma forma. Ela se mudou com a família para o Rio de Janeiro, onde o pai a matriculou, junto de um dos outros filhos, na Faculdade de Medicina. 

Alguns fatores favoreceram a admissão de Rita na Universidade, como a influência de sua família e um acordo assinado por D. Pedro II, que proibia qualquer tipo de discriminação contra mulheres cursando o ensino superior. No entanto, o ambiente ainda era predominantemente masculino e dotado de estigmas.

Devido a alguns desentendimentos de seu irmão com a reitoria da Faculdade, Rita acabou se transferindo para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Com medo de uma má recepção por parte dos colegas, foi surpreendida pela forma afetuosa que foi recebida e fez amizades que duraram por toda a sua vida. 

Graças ao seu êxito nas disciplinas, Rita concluiu em três o que seriam seis anos da graduação. A apresentação da tese “Paralelo entre os métodos preconizados na operação cesariana”, em novembro de 1887, permitiu que ela fosse aprovada como médica. Cerca de um mês depois, Rita Lobato, aos 21 anos, se tornou oficialmente a primeira mulher formada em Medicina no Brasil.

MEDICINA E VIDA PESSOAL

Após se formar, acabou se especializando em Obstetrícia e, a pedido da falecida mãe, ajudou todos os pacientes, fossem eles ricos ou pobres, da mesma forma. Ela voltou ao Rio Grande do Sul e passou a atender em um consultório particular. 

Se casou em 1889 com Antônio Maria Amaro de Freitas, um primo distante que foi seu namorado durante toda a adolescência. Pouco tempo após o casamento, o casal decidiu ir para Porto Alegre e foi na capital que Rita começou a realizar suas consultas em domicílio, atendendo demandas de pacientes de todas as classes sociais.

Em 1890, Rita deu à luz sua única filha, Ísis. Alguns anos depois, a médica decidiu que era hora de retomar os estudos e partiu para Buenos Aires para aperfeiçoar os conhecimentos sobre sua área da atuação. Ao voltar ao Brasil, continuou atendendo seus pacientes nos arredores de Rio Pardo, cidade onde residia com a família.

Após o casamento de sua filha, em 1925, a obstetra anunciou a sua aposentadoria. A morte de Antônio, marido de Rita Lobato, também fez com que ela procurasse motivação em novas atividades. Por meio da bióloga e ativista Bertha Lutz, a médica passou a apoiar o movimento feminista em busca do direito ao voto.

Seu envolvimento com a causa ainda possibilitou sua filiação ao Partido Libertador e, em 1934, Rita Lobato disputou o cargo de vereadora de Rio Pardo. Em agosto daquele ano foi eleita e, mais uma vez fazendo história, foi a primeira mulher a ocupar tal cargo naquela região.

Mesmo com a ascensão do Estado Novo devido ao golpe de Getúlio Vargas, que determinou a interdição das câmaras municipais, Rita continuou sua luta e, apesar de ter sofrido um acidente vascular cerebral, aos 73 anos, permaneceu atenta aos rumos que a política brasileira seguia.